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Azedô o pé do frango
 


Casamentação

Fazia um tempo que eu não perdia nada para sempre. Como é ruim sentir isso.

Talvez nem tanto por mim, mas pelo que vi nos olhares, nos sorrisos e claro, nas lágrimas. Era só uma menina, ainda quando a conheci, com roupas largas de surf, fazendo cursinho pré-vestibular, cheia de dúvidas. Esta que foi a única coisa que não mudou, assim como não mudou pra mim também.

Coisas de mulher, seus segredos, sua vontade e força agora são só delas. Ainda que tenha dividido pouco tempo, me senti irmão, me senti amigo, me senti parte, como foi hoje. Depois de tanto tempo, tantas pessoas e eu ainda estava lá e ela ainda está aqui. É uma coisa que não tive e que foi, que voltará, mas não no mesmo lugar.

Quem dedicou horas rindo de minhas bobagens, lendo minhas besteiras e fazendo cafuné até eu dormir. Quem me esperou para contar uma boa nova e fez de amigo apenas por querer bem, mais que isso, irmã que não tive para cuidar.

 

Nunca entendi porque mulheres choram em casamentos e hoje, me fez de vítima. Não na frente dos outros (não queria borrar a maquiagem! urgh...) mas nesta minha solidão. O pai disse que era apenas de perda e que preferia não ficar pensando, na mãe uma tristeza alegre e talvez um pouco de nostalgia. Alívio. Foi, como havia de ser, com os erros normais que deram certo, que aconteceram e como acabou. Ou começou?

Talvez eu sinta falta de não atender o telefone ou de ter que decorar um outro número. Talvez eu sinta falta de não ter que acordar pela manhã pra dar um beijo antes de ir embora. Talvez eu sinta falta da menina que deixava eu deitar na cama para conversar, mais de mim do que dela, passar horas fazendo nada. É assim...

 

Essa irmã que não tive, que tive e se foi. Que não era minha de verdade, mas parecia ser. Até ciúmes senti, cuidados dediquei, aos poucos fez de mim parte e parte que partiu agora só parte minha parte. É confuso sim... é esquisito.

 

É essa dor de adulto, que tem que se acostumar com as mudanças, que tem que estar preparado para começar a ficar só, mesmo cheio de gente por perto. É essa coisa de gente grande que faz coisas que não dá para entender, vai embora, muda o que estava bom, apenas porque quer mais.

 

Vão ficar as saudades, as lembranças e minha eterna admiração. 



Escrito por Henrique Rogatto às 02h50
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