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Azedô o pé do frango
 


Falando de Saudades

A saudade sempre fez parte de minha vida, mesmo antes de poder sentir saudades, já sentia saudades de alguma coisa que não sabia o que era.

Por entre os vidros altos do carro, que hoje parece de brinquedo diante da imensidão que era aquele banco traseiro, os prédios e casas antigas me deixavam tristeza e um sentimento de perda nos dias nublados, frios ou chuvosos. Era como se sentisse saudades de alguma coisa que havia deixado para trás.

Só percebia que o inverno estava para acabar quando podia sentir calor, tomar gelado e ter que pedir para meu pai mudar a chave do chuveiro. O velho pullover de lã, azul céu e branco, já começava ficar esquecido em algum lugar do armário. Só não esquecia a blusa do uniforme porque sempre é frio pela manhã na Serra da Cantareira. Não precisava mais passar longos 3 ou 4 minutos esperando a velha Brasília esquentar ou enxugar os olhos vermelhos e ressecados depois de descer da moto.

 

Sempre foi assim.

 

Aos Domingos, depois que o almoço terminava lá pelas quatro ou cinco da tarde, todos ''lagartavam'' em frente ao Faustão, com as mesmas piadas que ainda ouço depois de quase duas décadas. Quando era domingo de corrida o almoço terminava mais cedo, mas era como se fosse tudo igual.

 

Me dava saudades...

Saudades de quê? Do que um menino de pouco mais de cinco ou seis anos pode sentir saudades?

Ainda não sei.

 

 

Alguns dizem que é castigo morrer. Já não acredito mais. Não vivi muito, ao auge dos meus vinte e poucos anos, apenas mais dúvidas e mais saudades. É isso que vai matando todo mundo aos poucos. É disso que todos morremos... de saudades. Morrer é também dádiva de Deus, pois a saudades dói, machuca, seca... arrepende, consome, frustra e também desmoraliza a imensidão do homem.

Saudades daqueles que se foram, saudades dos que já não estão perto, dos momentos presos e angustiados nas fotografias, dos sentimentos, do cheiro daquela sala ou do cheiro que tem o sol com piscina, com arreia, com cerâmica de piso, cimento, mato... cheiro da rua da minha casa, cheiro da calçada.

 

Vivi sem saudades por um tempo e este é o tempo de que sinto mais saudades. É do tempo que sei que não voltará, pois minha inocência se foi e o mundo ficou grande, as pessoas profundas e cheias de ''coisas''. A simplicidade de acordar feliz ou azedo se foi, trocada por espasmos de euforia e um fundo de angústia.

Não é simples estar feliz, nem é simples sentir-se feliz. O que dependia apenas de um dia de sol ou de um jogo de futebol de botão é ofuscado pelo simples compromisso de ser cidadão, ter conta no banco e provar todos os dias que você é você mesmo.

Tenho um poema que diz algo como: ''alguns amigos eu fui deixando e de alguns prazeres eu fui provando''. Talvez você passe a vida inteira conversando e conhecendo muitas pessoas. Na verdade, quando você estuda, trabalha, faz cursos e outras coisas, você realmente acaba conhecendo muitas pessoas. Mas você sabe quem fica ou não dentro do seu coração.

Hoje encontrei um amigo. Fazia pelo menos uns três anos que não o via. Ele parecia muito igual, com sua barba por fazer e camiseta preta. Alguns quilos à mais, efeitos do namoro e faculdade... mas muito igual. O comentário era que eu passava mais tempo com ele do que com minha namorada! Estudávamos juntos e trabalhávamos juntos. Foram três de colégio e quase dois de trabalho. Será que eu não conheço esse menino?

Sabe que não. Não sei de sua história, do seu passado, dos seus gostos... apenas o conheço muito bem. Estranho não? O conheço o suficiente para saber quando está feliz ou triste, quando está querendo dizer alguma coisa ou quando não quer falar nada.

 

Alguns eu tive que deixar. É verdade... é triste também. Uns alguéns importantes, que hora pela distância, hora pelo rumo que as vidas tomaram. Foi quando entendi que quando o estranho vira hábito, o habitual incomoda. Essa saudades do hábito me incomoda o mesmo tanto que me incomoda o habitual.

 

Hoje, estou à um passo do fim do fim do meu sonho. Quando tinha uns dez anos sabia que poderia ter duas direções em minha vida. A primeira, que para mim parecia mais óbvia, ser piloto de avião e a segunda, engenheiro. Por fim estou me formando em Publicidade e Propaganda! Quando se é muito jovem, temos que sonhar o mais distante possível e esse distante era terminar a faculdade. Estou aqui agora.

 

Foi quando percebi que sua persistência é do tamanho de seu propósito. É muito simples. Nunca quis realmente ser rico e poderoso. Sempre quis ser feliz, fazer pessoas felizes. Nunca quis ser famoso e idolatrado, apenas quis que alguém dissesse que me ama à troco de nada, por nada, por coisa alguma... nem mesmo por meu amor.

 

Só é possível sentir saudades de algo que não consumimos até o fim. Quando não temos a percepção do que significa de verdade aquele momento. Trocando em miúdos, não se há saudade quando se é totalmente, quando se está totalmente, quando se tem totalmente. A saudade é o arrependimento de não ter tido mais, de não ter sido mais, de não se ter mais do que se teve.

 

É por isso que saudade é ruim, porque ela denuncia, aponta, critica... humilha. Faz o mais forte desistir e o mais fraco chorar de desespero. Faz mudar de idéia e querer o não quisto. A saudade é uma desgraça se não for vivida até o fim.

 

De saudades se vive, se consome e se destrói. A vida.



Escrito por Henrique Rogatto às 00h47
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